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Se você já ficou em dúvida na hora de responder “quanto você cobra?”, saiba que não está sozinho. A precificação é um dos maiores desafios enfrentados por advogados autônomos no Brasil. E o problema, na maioria das vezes, não é falta de competência técnica, mas sim ausência de um método claro para calcular o valor real da hora técnica jurídica.
Cobrar pouco parece, à primeira vista, uma estratégia para conquistar mais clientes. Na prática, esse caminho leva ao esgotamento profissional, à desvalorização do serviço jurídico e, muitas vezes, à inviabilidade financeira do escritório. Por outro lado, cobrar acima do que seu posicionamento atual justifica, também afasta clientes e gera insegurança na negociação.
A precificação correta da hora técnica jurídica não é apenas uma questão financeira, é uma questão ética e estratégica.
O que diz a OAB sobre honorários?
O artigo 49 do Código de Ética e Disciplina da OAB estabelece que os honorários devem ser fixados considerando a importância e complexidade da causa, o trabalho realizado, o tempo exigido e a capacidade econômica do cliente. As Tabelas de Honorários das seccionais estaduais funcionam como referência mínima, não como teto. Muitos advogados autônomos desconhecem esse ponto e acabam se limitando a valores que não cobrem nem seus próprios custos operacionais.
Com mais de 1,3 milhão de advogados inscritos ativos na OAB, a concorrência cresceu, mas a demanda por serviços jurídicos de qualidade também. O cliente contemporâneo não busca apenas o advogado mais barato: busca segurança, clareza e resultado. O advogado que sabe precificar bem não compete por preço, compete por valor.
O que compõe o valor da hora técnica jurídica?
O valor da hora técnica jurídica não é uma escolha aleatória, é o resultado de uma equação com várias variáveis. Advogados que definem seus honorários “no feeling” quase sempre cometem o mesmo erro: cobram pelo tempo que passam trabalhando, mas ignoram tudo o que custou para estar ali, qualificado e disponível para atender aquele cliente.
A hora técnica jurídica é composta por quatro grandes blocos:
Todo advogado autônomo tem custos, mesmo os que trabalham em home office. Entre os principais estão: aluguel ou coworking, internet e telefone, softwares jurídicos, anuidade da OAB, contador, cursos de atualização, marketing digital e deslocamentos. Um erro muito comum é o advogado em home office achar que não tem custos fixos. Tem sim, e eles precisam entrar no cálculo.
Ser autônomo não significa estar livre de tributos. Dependendo do regime adotado, o advogado está sujeito a ISS, IRPF, contribuição ao INSS e DAS do Simples Nacional. Esses encargos precisam estar embutidos no valor da hora técnica.
Esse é o conceito que mais gera distorção na precificação. Nem todas as horas trabalhadas são cobráveis. De 8 horas diárias, um advogado autônomo costuma ter entre 4 e 5 horas efetivamente faturáveis. O restante é consumido por prospecção, gestão administrativa, atualização profissional, atendimentos e diligências. Esse percentual é chamado de taxa de aproveitamento, e ele muda tudo no cálculo final.
O mesmo serviço jurídico pode ter valores muito diferentes dependendo de quem o executa. Fatores como tempo de experiência, especializações, histórico de resultados, reputação digital e localização agregam valor à hora técnica. A especialização é, na prática, o maior alavancador da precificação jurídica. Quanto mais específico e qualificado for o seu posicionamento, menor será a concorrência por preço.
Como calcular sua hora técnica jurídica: fórmula passo a passo
Siga os cinco passos abaixo. Ao final, você terá o valor mínimo sustentável da sua hora técnica jurídica.
Passo 1 — Mapeie seus custos mensais totais
Some todos os seus custos fixos e variáveis mensais com honestidade. Qualquer custo ignorado aqui vai sair do seu bolso depois. Veja o exemplo fictício abaixo e adapte a sua realidade.
Passo 2 — Defina sua remuneração desejada
Quanto você quer receber de salário líquido por mês? Esse número deve refletir suas necessidades reais: moradia, alimentação, saúde, lazer, poupança e investimentos. Muitos advogados ignoram esse passo e acabam trabalhando apenas para pagar os custos do escritório.
No nosso exemplo: R$ 8.000,00 líquidos desejados por mês.
Passo 3 — Calcule os encargos tributários
Trabalharemos com uma alíquota média de 15% sobre o total faturado — compatível com o regime de carnê-leão ou Simples Nacional para advogados autônomos.
Passo 4 — Calcule suas horas faturáveis mensais
Advogados ainda construindo carteira tendem a ter taxas menores (40–50%). Profissionais com agenda consolidada podem chegar a 65–70%.
Passo 5 — Aplique a fórmula final
É importante salientar que esse é o valor mínimo, o piso da sua precificação e para uma melhor clareza e conferência, o advogado deve consultar a tabela de honorários da sua região. Nela deve constar o valor mínimo da hora.
Vale destacar que o valor real cobrado ao cliente deve ser maior que o custo ou a hora mínima indicada pela OAB, considerando a complexidade do caso, a urgência, e o nível de especialização.
Erros que fazem advogados cobrarem menos do que deveriam
Advogado, conhecer o valor da sua hora técnica é essencial, mas não basta. Muitos advogados continuam cobrando menos do que deveriam por razões que vão além dos números. Veja os erros mais comuns:
Uma consultoria de 30 minutos que evita um passivo trabalhista de R$ 200.000,00 não vale R$ 200,00. O cliente não está comprando horas do seu dia: está comprando segurança jurídica, experiência acumulada e resultado. O valor hora é o piso. O valor percebido pelo cliente pode e deve elevar esse número em muitas situações.
Custos invisíveis são aqueles que existem, mas que o advogado não enxerga porque não chegam como fatura mensal: tempo não faturado em reuniões que não convertem, inadimplência, depreciação de equipamentos e ausência de benefícios que um empregado CLT teria — férias, 13º salário, FGTS e plano de saúde.
A Tabela de Honorários da OAB responde à pergunta “qual é o mínimo que devo cobrar?” e nunca “qual é o máximo que posso cobrar?”. Especialistas em nichos de alta demanda frequentemente cobram muito acima da tabela, de forma absolutamente legítima.
A inflação aumenta seus custos todos os meses. Sua experiência cresce. O mercado se transforma. Revisar o valor da hora técnica ao menos uma vez por ano, considerando o IPCA, novas especializações e o crescimento da carteira, não é ganância: é gestão profissional responsável.
Antes de oferecer qualquer desconto, pergunte-se: esse desconto ainda me permite cobrir meus custos mínimos? Estou negociando por estratégia ou por insegurança? Desconto sem critério não é flexibilidade, é subprecificação disfarçada.
Cada advogado tem uma estrutura de custos diferente, um nível de especialização diferente e um público diferente. Monitorar o mercado é saudável, mas definir seu preço com base no preço do colega, sem considerar sua própria equação financeira, é abrir mão da sua autonomia de precificação.
Conclusão
Calcular o valor da hora técnica jurídica não é adivinhação, é um processo estruturado, baseado em dados reais sobre seus custos, sua remuneração desejada, seus encargos e suas horas efetivamente faturáveis.
Mais do que uma fórmula, precificar corretamente é um posicionamento. É dizer ao mercado — e a si mesmo — que o seu trabalho tem valor, que a sua trajetória importa e que a sua sustentabilidade financeira é condição para um exercício ético e de qualidade da advocacia.
O advogado autônomo que domina sua precificação trabalha com mais clareza, atende com mais qualidade, seleciona melhor seus clientes e constrói uma carreira mais sólida e satisfatória.
Agora você tem o método. O próximo passo é colocar em prática.
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A estrutura da sua advocacia comunica ao mercado quem você é. Profissionalizar sua atuação não exige assumir custos elevados, mas tomar decisões estratégicas.
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